António Santos (Homem-estátua)

Conheci o António Pocinho antes de conhecer o escritor António Pocinho.
Ou talvez as duas coisas fossem inseparáveis. Com ele nunca se sabia muito bem onde acabava o homem e começava a personagem, onde terminava uma conversa e começava uma ideia, onde uma madrugada banal se transformava, sem darmos por isso, numa discussão sobre o sentido da vida, o absurdo das coisas ou qualquer teoria absolutamente improvável que, pela manhã, já nos parecia perfeitamente razoável.
As primeiras grandes memórias que tenho dele são em casa do meu primo Jorge, na Rua de Arroios. Madrugadas intermináveis. Filosofia, conversa, disparate, inteligência, provavelmente algum álcool e aquela sensação, que só algumas pessoas nos dão, de que dormir seria uma enorme perda de tempo.
Falávamos.
Falávamos até já não haver noite.
O Pocinho tinha essa capacidade rara de pegar numa ideia e virá-la ao contrário, depois de lado, depois de cabeça para baixo, só para verificar se, vista daquela posição, não revelaria qualquer coisa que os outros ainda não tinham reparado.
Mais tarde aluguei-lhe um quarto numa casa que tive no Bairro dos Actores. E depois voltámos a partilhar casa no Eremitério da Rinchoa, numa altura particularmente difícil da minha vida, quando me separei da mãe do meu filho.
O Pocinho esteve lá.
E esta talvez seja uma das coisas mais importantes que posso dizer sobre ele.
Esteve lá.
Há amigos que são extraordinários à mesa, nas festas, nas viagens, nas noites felizes. E há aqueles que continuam sentados quando a festa acaba e já só ficaram os copos vazios e os problemas.
O Pocinho era desses.
Foi um amigo nos bons e nos maus momentos. Solidário sem precisar de fazer discursos sobre solidariedade. Divertido, inventivo, audaz. Capaz de transformar uma situação absurda numa situação ainda mais absurda — e, por isso mesmo, muito mais suportável.
Acompanhou-me em várias digressões ao estrangeiro. Partilhámos estradas, cidades, espectáculos, cansaços, regressos.
E havia uma frase que ficou para sempre ligada a ele.
Quando regressávamos a Portugal, pouco depois de atravessarmos a fronteira, o Pocinho começava a sentir novamente o peso do país e dizia:
«Portugal já me está a cair em cima.»
Eu percebia perfeitamente o que ele queria dizer.
Não era apenas uma frase contra Portugal. Era o Pocinho a sentir novamente o tecto. Depois da estrada, das cidades estrangeiras, da sensação de espaço e de possibilidade, regressava aquela espécie de gravidade portuguesa que ele parecia sentir fisicamente sobre os ombros.
«Portugal já me está a cair em cima.»
Ainda hoje consigo ouvi-lo dizer aquilo.
O Pocinho era um intelectual, mas a palavra é curta para o descrever. Porque há intelectuais que acumulam conhecimento e há outros que não conseguem impedir o pensamento de lhes acontecer.
Ele pertencia aos segundos.
Pensava por necessidade.
Inventava por necessidade.
Desconfiava das evidências por necessidade.
O mundo tal como estava organizado parecia-lhe demasiado simples.
Talvez por isso o xadrez normal não lhe chegasse.
O xadrez em duas dimensões era para meninos.
O Pocinho precisava de mais tabuleiros, mais níveis, outras diagonais, peças que talvez ainda não tivessem sido inventadas. Precisava de pensar por cima e por baixo daquilo que estava à frente dos olhos.
E talvez tenha sido assim também na vida.
Jogava em várias dimensões ao mesmo tempo.
Algumas nós víamos.
Outras, provavelmente, só ele.
Quando penso nele, não penso primeiro nos livros que escreveu. Penso nas madrugadas da Rua de Arroios. No Bairro dos Actores. No Eremitério da Rinchoa. Nas viagens. Nas conversas. Nos disparates geniais. Nos momentos difíceis. Na amizade.
Penso num homem capaz de estar presente sem fazer da presença um favor.
E penso naquela frase, dita no regresso de mais uma viagem:
«Portugal já me está a cair em cima.»
Agora, tantos anos depois, ocorre-me que talvez algumas pessoas façam precisamente o contrário.
Em vez de nos caírem em cima, abrem espaço.
O Pocinho, para mim, foi uma delas.